domingo, 19 de dezembro de 2010

Clarice Lispector


Restos do Carnaval


Não, não deste último carnaval. Mas não sei por que este me transportou para a minha infância e para as quartas-feiras de cinzas nas ruas mortas onde esvoaçavam despojos de serpentina e confete. Uma ou outra beata com um véu cobrindo a cabeça ia à igreja, atravessando a rua tão extremamente vazia que se segue ao carnaval. Até que viesse o outro ano. E quando a festa ia se aproximando, como explicar a agitação íntima que me tomava? Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate. Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas. Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim. Carnaval era meu, meu.

No entanto, na realidade, eu dele pouco participava. Nunca tinha ido a um baile infantil, nunca me haviam fantasiado. Em compensação deixavam-me ficar até umas 11 horas da noite à porta do pé de escada do sobrado onde morávamos, olhando ávida os outros se divertirem. Duas coisas preciosas eu ganhava então e economizava-as com avareza para durarem os três dias: um lança perfume e um saco de confete. Ah, está se tornando difícil escrever. Porque sinto como ficarei de coração escuro ao constatar que, mesmo agregando tão pouco à alegria, eu era de tal modo sedenta que um quase nada já me tornava uma menina feliz.

E as máscaras? Eu tinha medo mas era um medo vital e necessário porque vinha de encontro à minha mais profunda suspeita de que o rosto humano também fosse uma espécie de máscara. À porta do meu pé de escada, se um mascarado falava comigo, eu de súbito entrava no contato indispensável com o meu mundo interior, que não era feito só de duendes e príncipes encantados, mas de pessoas com o seu mistério. Até meu susto com os mascarados, pois, era essencial para mim.

Não me fantasiavam: no meio das preocupações com minha mãe doente, ninguém em casa tinha cabeça para carnaval de criança. Mas eu pedia a uma de minhas irmãs para enrolar aqueles meus cabelos lisos que me causavam tanto desgosto e tinha então a vaidade de possuir cabelos frisados pelo menos durante três dias por ano. Nesses três dias, ainda, minha irmã acedia ao meu sonho intenso de ser uma moça – eu mal podia esperar pela saída de uma infância vulnerável – e pintava minha boca de batom bem forte, passando também ruge nas minhas faces. Então eu me sentia bonita e feminina, eu escapava da meninice.

Mas houve um carnaval diferente dos outros. Tão milagroso que eu não conseguia acreditar que tanto me fosse dado, eu, que já aprendera a pedir pouco. É que a mãe de uma amiga minha resolvera fantasiar a filha e o nome da fantasia era no figurino Rosa. Para isso comprara folhas e folhas de papel crepom cor-de-rosa, com as quais, suponho, pretendia imitar as pétalas de uma flor. Boquiaberta, eu assistia pouco a pouco à fantasia tomando forma e se criando. Embora de pétalas o papel crepom nem de longe lembrasse, eu pensava seriamente que era uma das fantasias mais belas que jamais vira.

Foi quando aconteceu, por simples acaso, o inesperado: sobrou papel crepom, e muito. E a mãe de minha amiga – talvez atendendo a meu apelo mudo, ao meu mudo desespero de inveja, ou talvez por pura bondade, já que sobrara papel – resolveu fazer para mim também uma fantasia de rosa com o que restara de material. Naquele carnaval, pois, pela primeira vez na vida eu teria o que sempre quisera: ia ser outra que não eu mesma.

Até os preparativos já me deixavam tonta de felicidade. Nunca me sentira tão ocupada: minuciosamente, minha amiga e eu calculávamos tudo, embaixo da fantasia usaríamos combinação, pois se chovesse e a fantasia se derretesse pelo menos estaríamos de algum modo vestidas – à ideia de uma chuva que de repente nos deixasse, nos nossos pudores femininos de oito anos, de combinação na rua, morreríamos previamente de vergonha – mas ah! Deus nos ajudaria! Não choveria! Quanto ao fato de minha fantasia só existir por causa das sobras de outra, engoli com alguma dor meu orgulho que sempre fora feroz, e aceitei humilde o que o destino me dava de esmola.

Mas por que exatamente aquele carnaval, o único de fantasia, teve que ser tão melancólico? De manhã cedo no domingo, eu já estava de cabelos enrolados para que até de tarde o frisado pegasse bem. Mas os minutos não passavam, de tanta ansiedade. Enfim, enfim! Chegaram três horas da tarde: com cuidado para não rasgar o papel, eu me vesti de rosa.

Muitas coisas que me aconteceram tão piores que estas, eu já perdoei. No entanto essa não posso sequer entender agora: o jogo de dados de um destino é irracional? É impiedoso. Quando eu estava vestida de papel crepom todo armado, ainda com os cabelos enrolados e ainda sem batom e ruge – minha mãe de súbito piorou muito de saúde, um alvoroço repentino se criou em casa e mandaram-me comprar depressa um remédio na farmácia. Fui correndo vestida de rosa – mas o rosto ainda nu não tinha a máscara de moça que cobriria minha tão exposta vida infantil – fui correndo, correndo, perplexa, atônita, entre serpentinas, confetes e gritos de carnaval. A alegria dos outros me espantava.

Quando horas depois a atmosfera em casa acalmou-se, minha irmã me penteou e pintou-me. Mas alguma coisa tinha morrido em mim. E, como nas histórias que eu havia lido sobre fadas que encantavam e desencantavam pessoas eu fora desencantada; não era mais uma rosa, era de novo uma simples menina. Desci até a rua e ali de pé eu não era uma flor, era um palhaço pensativo de lábios encarnados. Na minha fome de sentir êxtase, às vezes começava a ficar alegre mas com remorso lembrava-me do estado grave de minha mãe e de novo eu morria.

Só horas depois é que veio a salvação. E se depressa agarrei-me a ela é porque tanto precisava me salvar. Um menino de uns 12 anos, o que para mim significava um rapaz, esse menino muito bonito parou diante de mim e, numa mistura de carinho, grossura, brincadeira e sensualidade, cobriu meus cabelos já lisos, de confete: por um instante ficamos nos defrontando, sorrindo, sem falar. E eu então, mulherzinha de 8 anos, considerei pelo resto da noite que enfim alguém me havia reconhecido: eu era, sim, uma rosa.

sábado, 27 de novembro de 2010

Monteiro Lobato, o inventor do nosso faz de conta

"Escrever é gravar reações psíquicas. O escritor funciona qual antena - e disso vem o valor da literatura. Por meio dela, fixam-se aspectos da alma dum povo, ou pelo menos instantes da vida desse povo."
Monteiro Lobato








Olá, turma!

As avaliações deste último bimestre estarão recheadas de histórias do Sítio do Picapau Amarelo: o mundo fantástico criado pelo genial Monteiro Lobato. 

Alguns textos da Avaliação de Português, por exemplo, foram tirados de seu livro A Reforma da Narureza. Nesse livro, Emília resolve mudar tudo o que ela acha errado na natureza. Aí já viu, né? Ela vai virar o Sítio de cabeça para baixo... Mas, para isso, a boneca de pano vai contar com uma ajuda muito especial, a de sua amiga Rãzinha - uma menina lá do Rio de Janeiro que vem parar no Sítio, a convite de Emília, com a ajuda do pó de pirlimpimpim. Você não vai perder, vai?

A seguir, você pode ler um dos capítulos desse adorável livro, lançado em 1941 e que é considerado um dos mais originais de Monteiro Lobato. 

Tenho certeza de que vai gostar e se divertir muito com as 'reformas' propostas por Emília. Só não sei se você vai concordar com as ideias dela... Leia e depois me conte, tá?



O livro comestível


           A maior parte das ideias da Rã eram desse tipo. Pareciam brincadeiras, e isso irritava Emília, que estava tomando muito a sério o seu programa de reforma do mundo. Emília sempre foi uma criaturinha muito séria e convencida. Não fazia nada de brincadeira.
          - Parece incrível, Rã! - disse ela. - Chamei você para me ajudar com ideia na reforma, mas até agora não saiu dessa cabecinha uma só coisa aproveitável - só "desmoralizações ...”
          - Isso não! A ideia das tetas com torneiras na Mocha foi minha e você gostou muito. A da pulga também.
          - Só essas. Todas as outras eu tive de jogar no lixo. Vamos ver mais uma coisa. Que acha que devemos fazer para a reforma dos livros?
          A Rãzinha pensou, pensou e não se lembrou de nada.
         - Não sei. Parecem-me bem como estão.
         - Pois eu tenho uma ideia muito boa - disse Emília. - Fazer o livro comestível.
         - Que história é essa?
         - Muito simples. Em vez de impressos em papel de madeira, que só é comestível para o caruncho, eu farei os livros impressos em um papel fabricado de trigo e muito bem temperado. A tinta será estudada pelos químicos - uma tinta que não faça mal para o estômago. O leitor vai lendo o livro e comendo as folhas; lê uma, rasga-a e come. Quando chega ao fim da leitura está almoçado ou jantado. Que tal?
         A Rãzinha gostou tanto da idéia que até lambeu os beiços.
        - Ótimo, Emília! Isto é mais que uma ideia-mãe. E cada capítulo do livro será feito com papel de um certo gosto. As primeiras páginas terão gosto de sopa; as seguintes terão gosto de salada, de assado, de arroz, de tutu de feijão com torresmos.
         As últimas serão as da sobremesa - gosto de manjar branco, de pudim de laranja, de doce de batata.
        - E as folhas do índice - disse Emília - terão gosto de café - serão o cafezinho final do leitor. Dizem que o livro é o pão do espírito. Por que não ser também pão do corpo? As vantagens seriam imensas. Poderiam ser vendidos nas padarias e confeitarias, ou entregues de manhã pelas carrocinhas, juntamente com o pão e o leite.
        - Nem precisaria mais pão, Emília! O velho pão viraria livro. O Livro-Pão, o Pão-Livro. Quem soube ler, lê o livro e depois come; quem não souber ler come-o só, sem ler. Desse modo o livro pode ter entrada em todas as casas, seja dos sábios, seja dos analfabetos. Otimíssima ideia, Emília!
        - Sim - disse esta muito satisfeita com o entusiasmo da Rã. - Porque, afinal de contas, isso de fazer os livros só comíveis para o caruncho é bobagem - podemos fazê-los comíveis para nós também.
        - E quem deu a você essa ideia, Emília?
        - Foi o raciocínio. O livro existe para ser lido, não é? Mas depois que o lemos e ficamos com toda a história na cabeça, o livro se torna uma inutilidade na casa. Ora, tornando se comestível, diminuímos uma inutilidade.
        - E quando a gente quiser reler um livro?
        - Compra outro, do mesmo modo que compramos outro pão todos os dias.
       A ideia, depois de discutida em todos os seus aspectos, foi aprovada, e Emília reformou toda a biblioteca de Dona Benta.
        Fez um papel gostosíssimo e de muito fácil digestão, com sabor e cheiro bastante variados, de modo que todos os paladares se satisfizessem. Só não reformou os dicionários e outros livros de consulta. Emília pensava em tudo.
        Também reformou muita coisa na casa. Por meio de cordas e carretilhas as camas subiam para o forro de manhã, depois de desocupadas, a fim de aumentar o espaço dos cômodos. As fechaduras não precisavam de chaves; bastava que as pessoas pusessem a boca no buraco e dissessem: "Sésamo, abre-te" e elas se abriam por si mesmas.
         - E os mudos? - perguntou a Rãzinha. - Como vão arrumar-se? Só se eles andarem com uma vitrola no bolso, que pronuncie por eles a palavra Sésamo.
         Emília atrapalhou-se com o caso dos mudos e deixou-o para resolver depois.
         O leite a ferver ao fogo dava um assobio quando chegava no ponto, de modo a avisar ao fogo, o qual imediatamente parava de agir. O mesmo com todas as comidas - e dessa maneira acabou-se a desagradável história do "feijão com bispo.”
         E tanta e tanta coisa as duas fizeram, que se fôssemos contar metade teríamos de encher dois volumes. Lá pelo fim da semana o Sítio do Pica-pau estava totalmente transformado, não dando a menor ideia do antigo. Foi por essa ocasião que chegou carta de Dona Benta anunciando a volta.
          - "Já concluímos o nosso serviço na Europa" - dizia ela.
         - "Deixamos o continente transformado num perfeito sítio - com tudo direitinho e todos contentes e felizes. A Comissão que nos trouxe vai reconduzir-nos para aí novamente. Devemos chegar na próxima segunda-feira e espero encontrar tudo em ordem.”
         Emília leu a carta para a Rãzinha, dizendo:
        "É uma danada, esta velha! Foi lá e fez o que todos aqueles ditadores e reis não conseguiram. Temos agora de preparar a casa para recebê-la.”

Monteiro Lobato. In: A Reforma da Natureza. São Paulo: Globo, 2008



Agora, você pode assistir a continuação dessa história no episódio do Sítio do Picapau Amarelo que mostra Dona Benta e sua turminha chegando ao Sítio e encontrando tudo "reformado", inclusive a  sua biblioteca. Não deixe de conferir! Vem confusão por aí...







Entrevista com Monteiro Lobato  (parte 3), a última concedida antes de sua morte. Nela, Lobato já estava doente, mas não deixa de comentar que adora as cartinhas e as visitas que recebe das crianças. Para ele, esse é um privilégio que só os autores que se dedicam às crianças podem ter. Também lamenta-se de não ter escrito somente para as crianças, visto que estas são as únicas que realmente importam.

Lobato concede a Murilo Antunes Alves, da Rádio Record, esta última entrevista, em 1948. Dois dias após o bate-papo, o escritor veio a falecer, vitimado por um derrame.








Você conhece o Conselheiro? Ele também é um personagem criado por Monteiro Lobato. O Conselheiro é um burro falante, educado e culto, trazido do 'país das fábulas' pelas crianças do Sítio. Seu nome foi dado por Emília e ele é muito querido por todos do Sítio.
Se você quiser brincar com o Conselheiro de FORCA, é só clicar no endereço abaixo. Boa diversão! 










"Um país se faz com homens e livros."
Monteiro Lobato


sábado, 23 de outubro de 2010

Tema central da atividade educacional

Língua Portuguesa/Produção de texto

Objetivos de aprendizagem

Produzir textos coerentes e criativos;

Refletir sobre algumas características de um conto de fadas, definir e diferenciar conceitos do universo desse tipo de narrativa;

Familiarizar-se com os contos de fadas modernos através de filmes/paródias;

Possibilitar, a partir da constatação da necessidade da troca de textos com os colegas e professores, a percepção do valor da releitura e da reescrita para transformar o texto em um material vivo sempre disponível para ser revisitado e reinventado.

Segmento de ensino e séries envolvidas

Ensino Fundamental -  5º ao 9º ano

Ferramentas da web 2.0 que serão utilizadas

Blog
Webquest
Correio eletrônico

Metodologia de aplicação

A turma deve ser estimulada a ler diferentes contos de fadas na internet e a partir daí escolher aquele com o qual mais se identifica para escrever uma paródia. O passo a passo dessa produção de texto está disponível na seguinte webquest


Forma de avaliação 

As atividades serão acompanhadas online e, sempre que houver necessidade, o professor poderá sugerir melhoras e dar dicas de como aperfeiçoar o trabalho. Será  analisado o posicionamento de todos (sem exceção), pois em sala há sempre estudantes que participam menos que outros. Uma das vantagens de trabalhar com um ambiente virtual é que tudo fica registrado na rede: quem entregou o quê, a que horas, como foi a participação de cada aluno nas discussões etc. 

As notas serão distribuídas a partir da avaliação dos seguintes critérios:

* se a linguagem está adequada ao leitor;

* se a história apresenta novos fatos e se os mesmos são abordados com criatividade;

* se tempo e espaço estão identificados;

* se o enredo tem personagens e elementos típicos de um conto de fadas;

* se a transformação foi coerente com a proposta;

* se os parágrafos foram bem organizados;

* se o texto está pontuado adequadamente;

* se o tempo de entrega dos trabalhos foram respeitados.
               
Cronograma 

6 semanas

Referências bibliográficas

BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação à Distância.  Tecnologias na educação: ensinando e                                                         Aprendendo com as TIC –  Guia  do Cursista / Maria Umbelina Caiafa Salgado, Ana Lúcia Amaral. Brasília: Ministério da Educação, 2008.

ABRAMOVAY, M. Escolas Inovadoras: experiências bem-sucedidas em escolas públicas. Miriam Abramovay et alli – Brasília: UNESCO, 2004.

Internet
Revista Nova Escola. Plano de Aula. Geografia: Lição de casa com a web 2.0. Disponível em: <http://revistaescola.abril.com.br/geografia/pratica-pedagogica/estudo-rede-licao-casa-geografia-ambiente-virtual-528567.shtml>. Acesso em: 18/07/2010. 




 




 

A verdadeira história dos três porquinhos

Era uma vez um lobo que se chamava Lobo Mau. Mas, ao contrário, ele não era nada mau, era até muito bonzinho! Gostava de ler, de cantar e também de ajudar os outros vizinhos do bosque.

Um dia, Lobo Mau ficou sabendo que havia chegado três porquinhos no bosque em que morava. Eles se chamavam: Porcão, Porco e Porquito. Mas havia um problema: eles faziam parte da famosa “Gangue dos Três Porquinhos”, a GTP.

E assim que chegaram ao bosque, os três porquinhos foram passear para conhecer o “pedaço”. Logo avistaram uma casa muito bonita na esquina, era a casa do Lobo Mau (o tal lobo bonzinho). Não deu outra! Os porquinhos resolveram roubar a tal casa. Então, entraram na casa pela chaminé e fizeram o lobo de refém. Roubaram tudo que puderam: joias, dinheiro, eletrodomésticos, etc... Quando terminaram, fugiram sorrateiramente.

O Lobo Mau, que acreditava na justiça do bosque, foi à delegacia prestar queixa contra a GTP. No dia seguinte, o Lobo Mau viu os três porquinhos sendo presos e ficou muito feliz. Suas joias e parte do dinheiro roubado foram devolvidos. Os eletrodomésticos e outras coisinhas menores também foram recuperados. Assim, o Lobo Mau (ou Lobo Bonzinho, rs...) viveu feliz para sempre. E os três porquinhos da GTP? Esses também foram presos para sempre, me-re-ci-da-men-te!



Texto e ilustração: Wannyslane da Costa Leite, 11 anos.
Orientação: Prof.ª Elaine Cozendey / Turma: 502
Data: 07/10/2010
Unidade Escolar: Ciep Brizolão 141 – Vereador Said Tanus José







quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Felicidade, Sylvia Orthof



Poesia é assim: entra pelo ouvido e fica guardada no coração, aquecendo... 
Veja a seguir Sarah Carvalho, minha aluna, declamando o poema Felicidade, de Sylvia Orthof, durante uma aula de interpretação textual. 
Ficou uma graça!
_




 Felicidade 

Quentinho pão estalado,
manteiga do derretido,
um bom-dia ensolarado,
um nunca ter te esquecido,
uma casa lá na serra,
um buraco no jardim
cavado pelo cachorro
que gostava tanto de mim,
um chinelo bem usado,
uma estrela pra se olhar,
na vida simples do mundo
é tão bom se lambuzar!

Sylvia Orthof





quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Como é sua semana?

A leitura de textos populares — e literários, em geral — não apenas dá prazer como nos leva a pensar. Esse é um dos caminhos para que o pequeno leitor, descubra, aos poucos, o tempo histórico em que vive. 

Lúcia Pimentel Góes reuniu e recriou parlendas em seu livro Quem faz os dias da semana? e, brincando com a estrutura poética dessa forma bastante difundida de conto folclórico, nos mostra como diferentes povos e pessoas vivem a semana. Ao ler essas inesperadas e divertidas “semanas”, você vai ter a oportunidade de refletir sobre como vive no seu próprio tempo.




Fizemos uma roda de leitura, onde cada aluno leu em voz alta uma das "semanas" que o livro apresenta. Ao fazer essas leituras, fomos percebendo que há vários modos de viver a semana: há o jeito da “preguiçosa”, da “vaidosa”, da “gulosa” etc. 

O livro parece nos perguntar: é a semana que faz o nosso dia a dia ou somos nós que fazemos a semana?

Você pode estar achando essa pergunta meio boba... Mas talvez não seja. Você deve ter percebido que o tempo não igual para todos. Como? Lembremos, antes, que os dias e as semanas fazem parte dos meses e estes, dos anos. Ou melhor, todos eles fazem parte do TEMPO que, desde sempre, foi um grande mistério para os povos antigos, que se perguntavam: por que o dia? e a noite? e o nascer? e o morrer? Mas a sabedoria popular foi aos poucos compreendendo e sistematizando o tempo, para que a vida em comunidade pudesse ser organizada. E sempre transmitindo esses “saberes” em cantos ou contos.

Você, certamente, já percebeu que a vida está cheia de perguntas. Vivemos querendo saber o por quê?, o quê? e o como? das coisas. A curiosidade é natural dos seres humanos. É perguntando que aprendemos. E aprender é enriquecer a vida.

Leia a seguir algumas produções textuais dos meus alunos.

Semana do menino estudioso

Na segunda, vou pesquisar.
Na terça, vou ler.
Na quarta, vou calcular.
Na quinta, vou fazer dever.
Na sexta, vou copiar.
No sábado, vou pensar.
No domingo, vou descansar...

E agora, professor:
Mais estudo, por favor!!!


Texto e ilustração: Lucas Vieira de Almeida, 10 anos


 
 
Semana do menino viajante

Na segunda, vou a Paris.
Na terça, vou à Itália.
Na quarta, vou ao Rio de Janeiro.
Na quinta, vou à praia.
Na sexta, vou a Los Angeles.
No sábado, vou a Moscou.
No domingo, que dúvida... 

Pra onde vou?!


Texto e ilustração: Hugo de Castro Rangel Cozendey, 10 anos



 
Semana da menina cozinheira

Na segunda, faço bolo.
Na terça, faço torta.
Na quarta, pé de moleque.
Na quinta, estrogonofe.
Na sexta, faço lasanha.
No sábado, vou de frango.
No domingo, qual será o rango?



Texto: Mayra Barroso Rosalino de Aguiar Roza, 10 anos
Ilustração: Larissa Rangel de Oliveira, 10 anos


 
Semana do menino brincalhão

Na segunda, jogo bola.
Na terça, ando de bicicleta.
Na quarta, brinco de pique.
Na quinta, ando de skate.
Na sexta, jogo basquete.
No sábado, jogo vôlei.
No domingo, brinco com meu cão.

E você, sabe soltar pião?



Texto e ilustração: Joadyr Villarinho Bonito Neto, 10 anos




Semana da tirania

Na segunda, eu mando.
Na terça, tu mandas.
Na quarta, ele manda.
Na quinta, nós mandamos.
Na sexta, vós mandais.
No sábado, eles mandam.
No domingo, volto a mandar!

Me diz aí, princesinha:
vou ou não vou te dominar?


Texto e ilustração: Raphael da Silva Brito, 11 anos
 

Semana da menina doente

Na segunda, fiquei com catapora.
Na terça, estive com febre.
Na quarta, fiquei gripada.
Na quinta, fui vomitar.
Na sexta, tive dor de barriga.
No sábado, fiquei com dor de cabeça.
No domingo, ai que moleza!...

E agora, doutor:
que remédio vai passar?


 Texto e ilustração: Sarah Ribeiro Alves, 10 anos
 


Semana do menino astronauta

Na segunda, vou a Marte.
Na terça, vou a Urano .
Na quarta, vou a Júpiter.
Na quinta, vou a Saturno.
Na sexta, vou a Vênus.
No sábado, vou a Netuno.
No domingo eu descanso.

E agora, Galileu:
existe um astronauta melhor do que eu?


 Texto e ilustração: Richardson Barbosa Araújo, 10 anos


terça-feira, 12 de outubro de 2010

Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na da folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.

João Cabral de Melo Neto